Você já passou por uma situação de violência?
O sofrimento após um evento traumático varia muito. Além do medo e da ansiedade, podem surgir sintomas depressivos, irritabilidade (ou mesmo crises de raiva e agressividade) ou ainda uma desconexão emocional ou vivencial chamada de dissociação.
Pode ser difícil diferenciar o que é uma reação normal a um evento traumático e o que é um transtorno reativo.
Reações de curto prazo, dependendo dos sintomas e da gravidade, podem caracterizar um transtorno de estresse agudo. Neste caso, a duração dos sintomas é de três dias a um mês.
Além de vivenciar um evento traumático, a pessoa pode apresentar sintomas de ansiedade, revivências do evento e reações emocionais e físicas intensas em resposta a lembranças do trauma. É muito comum que tenham problemas com o sono, podendo ocorrer pesadelos ou um estado de alerta que dificulta o adormecimento. Podem irritar-se com facilidade e até mesmo apresentar comportamento verbalmente ou fisicamente agressivo.
Os sintomas podem melhorar espontaneamente em até um mês ou podem evoluir para o transtorno de estresse pós-traumático .
No transtorno de estresse pós-traumático, a pessoa apresenta uma série de sintomas característicos que persistem por pelo menos um mês após a exposição a um evento traumático.
São potenciais eventos traumáticos: ameaça ou ocorrência real de agressões físicas ou sexuais, sequestros, exposições a desastres naturais ou provocados pelo homem, acidentes automobilísticos graves ou mesmo eventos médicos súbitos e catastróficos.
O transtorno pode ser particularmente grave quando o trauma é realizado por outra pessoa e de maneira intencional.
Quatro grupos de sintomas estão presentes em maior ou menor grau (desta forma, a apresentação do transtorno de estresse pós-traumático pode mudar muito de uma pessoa para outra): 1) sintomas de revivência do trauma; 2) sintomas de evitação de coisas que lembrem o trauma; 3) humor e pensamentos negativos; 4) hiper-reatividade do estado de alerta, da raiva ou impulsividade.
Algumas vezes, estes sintomas são intensos logo após o trauma, mas, em cerca de metade dos casos, só ficam claros meses depois. Ou seja, uma pessoa que aparentemente "reagiu bem" em um primeiro momento, pode apresentar os sintomas mais tarde.
No transtorno de estresse pós-traumático, o trauma pode ser revivido de diversas maneiras. Podem acontecer lembranças repetitivas que surgem contra a vontade da pessoa. Sonhos angustiantes são frequentes. Menos comuns, mas bastante desconfortáveis são intrusões sensoriais que são chamadas de flashbacks. A pessoa pode ter a sensação de que viu alguém ou algo relacionado ao trauma, ou que ouviu uma voz ou um barulho que remetem ao trauma. Pode acontecer até de perder o senso de realidade ou a percepção do que está ao redor e sentir como se estivesse de volta à cena do trauma. Estes episódios geralmente duram poucos segundos, mas podem durar bem mais. Mesmo quando são breves, podem gerar desconforto e um estado de alerta por muito mais tempo.
A exposição a situações, pessoas ou objetos associados ao trauma frequentemente provoca sofrimento emocional intenso e/ou reações físicas de ansiedade, como palpitações, sudorese, e tremores. Estes estímulos muitas vezes são evitados ao máximo. A pessoa pode evitar inclusive lembranças e pensamentos sobre o evento traumático.
Após um evento traumático, a pessoa pode ter dificuldade em se lembrar de detalhes ou mesmo de um longo período de tempo, como se tivesse ficado uma lacuna nas lembranças. A forma como a pessoa se enxerga e enxerga os outros pode ser fortemente modificada. Ideias negativas exageradas podem se formar: "sou muito descuidado", "ninguém é confiável", "nunca estarei seguro". Ideias de culpa também são frequentes: "a culpa de ter sido abusada é minha", "eu devia ter imaginado que isso poderia acontecer".
A pessoa pode ter sentimentos negativos persistentes como medo, raiva, culpa, vergonha. Pode perder o interesse em coisas antes prazerosas, se isolar e sentir-se incapaz de ter emoções boas como felicidade, alegria e satisfação. Pode ter dificuldade em sentir intimidade ou ternura. Pode acontecer de se tornar muito facilmente irritável ou adotar um comportamento imprudente e autodestruitivo. Pode reagir com fortes sobressaltos a estímulos inesperados., ter problemas de concentração e de sono.
O tratamento é feito com psicoterapia, medicação ou ambos.
A psicoterapia pode ser iniciada já na fase de transtorno de estresse agudo, o que diminui a chance de desenvolver TEPT ou a sua gravidade. A psicoterapia normalmente envolve educação sobre os sintomas, a utilização de técnicas de relaxamento e de controle da raiva, e ajuda a identificar e lidar com sentimentos de culpa, vergonha ou outros sentimentos negativos. Pode conter componentes de exposição, ou seja, o enfrentamento gradual de situações temidas (que vão desde pessoas e lugares até lembranças e sentimentos) e de reformulação dos pensamentos distorcidos que surgiram ou se intensificaram com o trauma.
As medicações mais frequentemente utilizadas são antidepressivos, que ajudam a controlar a tristeza, a raiva e as dificuldades afetivas. Outras medicações, por exemplo para melhorar o sono ou as crises de raiva, podem ser necessárias.
Muitas vezes, o tratamento precisa se estender para outros problemas que aparecem junto como depressão, transtorno de pânico ou dependência de álcool ou outras substâncias.
Se você conhece alguém que passou por um evento traumático e está apresentando sintomas do TEPT, o primeiro passo é garantir que essa pessoa seja avaliada por um profissional de saúde mental e receba o diagnóstico e o tratamento corretos.
Às vezes, é necessário ajudar a pessoa a agendar uma consulta e até mesmo acompanha-la em um primeiro momento. Estimule a pessoa a seguir o tratamento corretamente e a conversar com o profissional sobre o que está e o que não está indo bem. Lembre-se que os sintomas podem demorar várias semanas para começar a melhorar.
Ofereça suporte emocional buscando uma escuta empática e não crítica. Aprenda sobre o TEPT. Compartilhe atividades de lazer positivas. Reconheça e elogie os progressos e seja condescendente e paciente com as dificuldades.
Lembre-se: nunca menospreze comentários sobre desejos de morrer. Converse abertamente sobre o assunto com aquela mesma postura empática e não crítica. Se perceber que existe uma ideação suicida concreta, procure atendimento médico de urgência.
Crianças e adolescentes podem reagir de forma intensa a um evento traumático. Crianças com até 6 anos de idade podem expressar os sintomas de revivência em brincadeiras ou desenhos (de maneira direta ou simbólica), por exemplo, encenando o evento traumático. O comportamento de brincar e explorar pode ficar reduzido e a criança pode não querer desgrudar da mãe ou de outros adultos. Nesta faixa etária, pode haver uma regressão do desenvolvimento como, por exemplo, voltar a urinar na cama ou parar de falar.
Crianças mais velhas e adolescentes podem se sentir covardes, ou mesmo socialmente indesejáveis e perder aspirações para o futuro. Podem passar a ter comportamentos de desrespeito aos pais, às regras ou autodestrutivos. Podem também se sentirem culpadas por não terem sido capazes de evitar que outros se ferissem ou morressem.
Nestas faixas etárias, o suporte psicoterápico é ainda mais importante do que em adultos.

